REPORTAGEM
Brava gente
Antes de existir conforto, existia coragem.
Antes de existir cidade, existia travessia.
Eles vieram de longe — da Suíça, da Alemanha — não por escolha fácil, mas por necessidade. Cruzaram o oceano em condições duras, enfrentaram doença, perdas e um território desconhecido. Não havia promessa garantida. Havia apenas a decisão de continuar.
Ao chegar à serra1, encontraram terra bruta, isolamento e dificuldade. O que hoje é história organizada, antes foi improviso, suor e tentativa. Construíram casas, abriram caminhos, plantaram onde parecia impossível. Muitos ficaram pelo caminho. Os que resistiram moldaram o que viria a ser uma cidade.
Com o tempo, os nomes deixaram de ser apenas registros em documentos antigos. Viraram famílias vivas. Wermelinger, Thurler, Ouverney, Jaccoud — nomes que carregam mais do que origem: carregam esforço acumulado.
Mesmo com o passar das gerações, algo permaneceu. Não só a tradição, mas o impulso de seguir em frente. De criar, de trabalhar, de reconstruir quando necessário.
Esta matéria publicada em O Globo2 não é apenas um registro jornalístico. É um reconhecimento público e oficial da importância histórica dessa imigração na formação da nossa região serrana — especialmente em Nova Friburgo, Bom Jardim e Duas Barras, terra das minhas raízes diretas.
Nova Friburgo, como primeira colônia suíça do Brasil3, abriu caminho para um legado que se espalhou pelo entorno, influenciando profundamente o modo de ser e viver da nossa gente.
Duas Barras carrega essa marca não apenas nos sobrenomes, nas tradições e na arquitetura, mas na alma do lugar4 — uma terra onde a memória não está enterrada, mas viva, pulsante, em cada cruz, em cada pedra, em cada festa, em cada história que resistiu ao tempo.
Hoje, encontros familiares, festas e memórias mantêm essa conexão viva. Não como nostalgia, mas como reconhecimento: existe uma raiz por trás de tudo.
Esta matéria também é um chamado. Um alerta silencioso para que valorizemos, preservemos e transmitamos esse legado às próximas gerações.
Porque Nova Friburgo não nasceu pronta. Foi construída por gente que não tinha certeza — mas tinha coragem.
E isso ainda está aqui.
Como descendente direto e guardião dessa herança, afirmo com respeito e determinação: nossa história não será esquecida. Ela seguirá como um farol — iluminando quem somos e orientando quem ainda seremos.
Brava gente
Por Fernanda Dutra · O Globo Serra, 14-15 de maio de 2011, págs. 6-9 · Fotos de Ana Branco
Transcrição literal preservada para fins arquivísticos. Texto fiel ao publicado em O Globo Serra, sem correções editoriais subsequentes. Reprodução em uso arquivístico-genealógico não-comercial, com atribuição visível à fonte.
Assim como Nova York, Nova Friburgo é uma das poucas cidades que conhece o nome de seus fundadores, gostam de dizer os historiadores locais. Esses nomes podem ser encontrados em documentos históricos, mas também estão vivos na região e espalhados pelo mundo. São os Ouverney, os Jaccoud, os Thurler e os Wermelinger, entre outros. O acesso à história dos antepassados levou muitos das gerações mais novas a pesquisarem suas raízes, seja como historiadores acadêmicos ou informalmente. A maioria dos relatos deixa claro que, desde a gênese de Nova Friburgo, em 1818, os friburguenses carregam no DNA o ímpeto para superar dificuldades e empreender nos negócios.
A história de superação dos friburguenses remonta à chegada dos primeiros colonos à cidade, que faz 193 anos nesta segunda.
"Não foi fácil", fazem coro os descendentes dos primeiros colonos suíços, a respeito da vinda para o Brasil. Primeiro, a situação no país europeu estava complicada: o contexto era de final das guerras napoleônicas, intempéries naturais e pobreza. Quando um tal conterrâneo Sébastien-Nicolas Gachet prometeu moradia e terras férteis no Brasil, dois mil suíços acorreram, felizes com a ideia.
Gachet trabalhara para Napoleão e conseguira autorização tanto do rei Dom João VI quanto do governo suíço para organizar a migração. O rei oficializou a criação da cidade em 16 de maio de 1818, com um decreto. Os primeiros suíços, no entanto, só chegaram de viagem dois anos depois.
— O navio era a vela. A viagem demorava muito e as condições de higiene eram ruins. Muitos morreram — conta Jayme Jaccoud, de 83 anos.
E haja coragem da parte da primeira Jaccoud que chegou ao Brasil. A viúva Nanette, então com 44 anos, saiu do subúrbio de Fiaugères, em Fribourg, com os quatro filhos. Já o marceneiro5 Xavier Wermelinger saiu de Lucerna6 com a mulher, Catherine7, e seis filhos. O mais novo, de 1 ano, morreu no caminho. Foi o único que não havia tomado vacina contra varíola. Na família Thurler, a caçula também não sobreviveu à viagem.
Informações como essas podem ser encontradas na internet, graças ao trabalho da Fundação Dom João VI, que se dedica à preservação do patrimônio histórico. No site <www.djoaovi.com.br>, é possível encontrar o nome e a idade de todos os colonos suíços que cruzaram o oceano.
Geraldo Thurler, presidente da associação da família que foi criada para estimular a pesquisa da árvore genealógica, diz que algumas ferramentas auxiliam o trabalho:
— Um deles é o site My Heritage, que funciona como uma rede social. Você cria o perfil da família e manda para os conhecidos. Cada um vai preenchendo os dados e mandando para os parentes até completar a árvore.
Os Thurler estão concentrados no estado do Rio, mas há gente em todo canto. O êxodo de Friburgo começou logo que os colonos chegaram à cidade e viram que a situação não era bem como a que havia sido prometida.
— Dom João VI mandou construir casas para 700 moradores, mas vieram mais de dois mil. Então, as pessoas tiveram que se amontoar nas casas, criando famílias artificiais — conta Tiago Wermelinger, que mantém o blog de história <afamiliawermelinger.blogspot.com>.
Quando as terras prometidas foram repartidas, outra decepção:
— A divisão não levava em conta a geografia do terreno. Pegaram um mapa e riscaram. Então, até terreno na pedreira do Cônego8 foi dado para a prática da agricultura, o que era totalmente inviável — conta Thurler.
Outras famílias ficaram isoladas na região de Lumiar9, como os Ouverney, que transformaram em tradição o casamento entre primos. Até hoje, em Benfica, o costume se mantém.
— Eu não tinha muita opção para escolher, casei com ela — brinca Agrimaldo Ouverney, de 83 anos, que caminhava quilômetros até a casa da prima Olinda para vê-la.
Quem conseguiu plantar foi surpreendido com uma enchente bem na época em que haveria a primeira colheita:
— Lá por 1819, 1820, teve uma grande enchente que destruiu as plantações — conta a historiadora Janaína Botelho. — Os suíços ouviam falar muito sobre a próspera região de Cantagalo e Bom Jardim, onde barões do café prosperavam. E começaram a migrar para a região.
A família Wermelinger adquiriu terras na década de 1840 na região que hoje é Duas Barras. Outra conhecida família suíça que migrou para a cidade foi a Monnerat.
Dez anos depois, havia 662 suíços morando nas vilas coloniais. Na metade do século XIX, Friburgo tinha 4.810 habitantes e só 20% eram suíços.
Famílias promovem encontros
Com ajuda da internet, os laços entre os descendentes de colonos se estreitaram. Muitas famílias organizam encontros periódicos. A cada dois anos, há "Wermelinger fest". Nos aniversários de Geraldo Thurler, ele promove a "Festa do pão" (evento em que cada um leva um ingrediente para produzir pães artesanais).
O diretor cultural da Casa Suíça, Maurício Pinheiro, diz que a herança fica mais evidente nos "clãs familiares" do que na preservação de cultura e danças típicas.
— As famílias são muito tradicionais, e os valores se mantêm. Mas o idioma, as danças e as músicas se perdem — diz.
A historiadora Janaína Botelho concorda com a afirmação de Pinheiro:
— Talvez porque os colonos eram muito humildes e ficavam isolados em comunidades agrícolas ocorreu esse processo de aculturação.
Na contramão, os Ouverney se orgulham de manter e disseminar a tradição gastronômica. Terezinha tem um restaurante em Mury10 e produz biscoitos amanteigados e o leckerli11, tipo de pão de mel muito consumido na Suíça.
— Aprendi com minha avó e, quando fui à Suíça, vi que as confeitarias usam as mesmas receitas — conta Terezinha.
Os pais dela, Agrimaldo e Olinda Ouverney, ainda moram na região de Lumiar. Eles trabalharam com agricultura a vida inteira e até hoje plantam café para consumo próprio. Agrimaldo, inclusive, guarda instrumentos dos antepassados.
Em contato com familiares suíços e associações culturais, Geraldo Thurler iniciou um projeto para resgatar danças e músicas folclóricas.
— Nós montamos um grupo de dança há pouco tempo. Os parentes estão adorando — conta Thurler, que ressalta outras heranças menos visíveis. — Educação rígida, apreço pelos detalhes, espírito empreendedor e garra são características do povo suíço.
Thurler lembra outro momento difícil na história da cidade. Sede de grandes fábricas têxteis desde o início do século passado, como a Renor das Arp e a Filó, Friburgo viu demissões em massa com a recessão da década de 1980. A superação da crise, porém, excedeu as expectativas.
— Em vez de chorar, as pessoas começaram a produzir lingerie em casa e prosperaram. O que eram duas empresas hoje é polo de moda íntima, com várias [empresas] — diz o pesquisador.
Nota arquivística: a pesquisa documental subsequente à publicação desta matéria em 2011 identificou três pequenas divergências factuais entre o texto jornalístico e fontes primárias suíças posteriormente acessadas. Estão registradas nas notas finais (12)12 deste post, em respeito ao princípio editorial deste arquivo. A matéria permanece reproduzida em sua forma original — divergências são registradas, não corrigidas no texto-fonte.
Scans da matéria original
Capa da edição de O Globo Serra — região serrana fluminense.
Reportagem Brava gente — abertura.
Reportagem Brava gente — continuação.
Reportagem Brava gente — conclusão e citação dos sobrenomes.
Notas
- serra — termo brasileiro que designa, neste contexto, a região montanhosa do interior do estado do Rio de Janeiro (especialmente a Serra dos Órgãos e adjacências), onde se localizam Nova Friburgo, Bom Jardim e Duas Barras. Carrega significado geográfico e cultural — território da imigração suíço-alemã desde 1819.
- O Globo — um dos maiores jornais brasileiros, fundado em 1925 no Rio de Janeiro. O Globo Serra é a edição regional dedicada à região serrana fluminense.
- Nova Friburgo foi fundada em 1818 por Decreto Régio de D. João VI e povoada em 1819 com a chegada de cerca de 2.000 imigrantes suíços, constituindo a primeira colônia suíça organizada em solo brasileiro — precedente histórico para as imigrações alemãs subsequentes ao Sul do Brasil.
- alma do lugar — equivalente ao clássico latino genius loci. A expressão remete ao caráter imaterial, saturado de história, de um lugar — algo que transcende seus traços materiais.
Duas Barras · Rio de Janeiro · Junho 2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário