BRAVA GENTE

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POST AUTORAL · PUBLICADO EM 21 DE JUNHO DE 2013
Por Tiago Torres Wermelinger, sobre a reportagem "Brava gente" de Fernanda Dutra, publicada em O Globo Serra nos dias 14-15 de maio de 2011 (págs. 6-9). Fotos de Ana Branco. Os scans da matéria original estão preservados ao final do post.

REPORTAGEM

Brava gente

Antes de existir conforto, existia coragem.
Antes de existir cidade, existia travessia.

Eles vieram de longe — da Suíça, da Alemanha — não por escolha fácil, mas por necessidade. Cruzaram o oceano em condições duras, enfrentaram doença, perdas e um território desconhecido. Não havia promessa garantida. Havia apenas a decisão de continuar.

Ao chegar à serra1, encontraram terra bruta, isolamento e dificuldade. O que hoje é história organizada, antes foi improviso, suor e tentativa. Construíram casas, abriram caminhos, plantaram onde parecia impossível. Muitos ficaram pelo caminho. Os que resistiram moldaram o que viria a ser uma cidade.

Com o tempo, os nomes deixaram de ser apenas registros em documentos antigos. Viraram famílias vivas. Wermelinger, Thurler, Ouverney, Jaccoud — nomes que carregam mais do que origem: carregam esforço acumulado.

Mesmo com o passar das gerações, algo permaneceu. Não só a tradição, mas o impulso de seguir em frente. De criar, de trabalhar, de reconstruir quando necessário.

Esta matéria publicada em O Globo2 não é apenas um registro jornalístico. É um reconhecimento público e oficial da importância histórica dessa imigração na formação da nossa região serrana — especialmente em Nova Friburgo, Bom Jardim e Duas Barras, terra das minhas raízes diretas.

Nova Friburgo, como primeira colônia suíça do Brasil3, abriu caminho para um legado que se espalhou pelo entorno, influenciando profundamente o modo de ser e viver da nossa gente.

Duas Barras carrega essa marca não apenas nos sobrenomes, nas tradições e na arquitetura, mas na alma do lugar4 — uma terra onde a memória não está enterrada, mas viva, pulsante, em cada cruz, em cada pedra, em cada festa, em cada história que resistiu ao tempo.

Hoje, encontros familiares, festas e memórias mantêm essa conexão viva. Não como nostalgia, mas como reconhecimento: existe uma raiz por trás de tudo.

Esta matéria também é um chamado. Um alerta silencioso para que valorizemos, preservemos e transmitamos esse legado às próximas gerações.

Porque Nova Friburgo não nasceu pronta. Foi construída por gente que não tinha certeza — mas tinha coragem.

E isso ainda está aqui.

Como descendente direto e guardião dessa herança, afirmo com respeito e determinação: nossa história não será esquecida. Ela seguirá como um farol — iluminando quem somos e orientando quem ainda seremos.

Brava gente

Por Fernanda Dutra · O Globo Serra, 14-15 de maio de 2011, págs. 6-9 · Fotos de Ana Branco

Transcrição literal preservada para fins arquivísticos. Texto fiel ao publicado em O Globo Serra, sem correções editoriais subsequentes. Reprodução em uso arquivístico-genealógico não-comercial, com atribuição visível à fonte.

Assim como Nova York, Nova Friburgo é uma das poucas cidades que conhece o nome de seus fundadores, gostam de dizer os historiadores locais. Esses nomes podem ser encontrados em documentos históricos, mas também estão vivos na região e espalhados pelo mundo. São os Ouverney, os Jaccoud, os Thurler e os Wermelinger, entre outros. O acesso à história dos antepassados levou muitos das gerações mais novas a pesquisarem suas raízes, seja como historiadores acadêmicos ou informalmente. A maioria dos relatos deixa claro que, desde a gênese de Nova Friburgo, em 1818, os friburguenses carregam no DNA o ímpeto para superar dificuldades e empreender nos negócios.

A história de superação dos friburguenses remonta à chegada dos primeiros colonos à cidade, que faz 193 anos nesta segunda.

"Não foi fácil", fazem coro os descendentes dos primeiros colonos suíços, a respeito da vinda para o Brasil. Primeiro, a situação no país europeu estava complicada: o contexto era de final das guerras napoleônicas, intempéries naturais e pobreza. Quando um tal conterrâneo Sébastien-Nicolas Gachet prometeu moradia e terras férteis no Brasil, dois mil suíços acorreram, felizes com a ideia.

Gachet trabalhara para Napoleão e conseguira autorização tanto do rei Dom João VI quanto do governo suíço para organizar a migração. O rei oficializou a criação da cidade em 16 de maio de 1818, com um decreto. Os primeiros suíços, no entanto, só chegaram de viagem dois anos depois.

— O navio era a vela. A viagem demorava muito e as condições de higiene eram ruins. Muitos morreram — conta Jayme Jaccoud, de 83 anos.

E haja coragem da parte da primeira Jaccoud que chegou ao Brasil. A viúva Nanette, então com 44 anos, saiu do subúrbio de Fiaugères, em Fribourg, com os quatro filhos. Já o marceneiro5 Xavier Wermelinger saiu de Lucerna6 com a mulher, Catherine7, e seis filhos. O mais novo, de 1 ano, morreu no caminho. Foi o único que não havia tomado vacina contra varíola. Na família Thurler, a caçula também não sobreviveu à viagem.

Informações como essas podem ser encontradas na internet, graças ao trabalho da Fundação Dom João VI, que se dedica à preservação do patrimônio histórico. No site <www.djoaovi.com.br>, é possível encontrar o nome e a idade de todos os colonos suíços que cruzaram o oceano.

Geraldo Thurler, presidente da associação da família que foi criada para estimular a pesquisa da árvore genealógica, diz que algumas ferramentas auxiliam o trabalho:

— Um deles é o site My Heritage, que funciona como uma rede social. Você cria o perfil da família e manda para os conhecidos. Cada um vai preenchendo os dados e mandando para os parentes até completar a árvore.

Os Thurler estão concentrados no estado do Rio, mas há gente em todo canto. O êxodo de Friburgo começou logo que os colonos chegaram à cidade e viram que a situação não era bem como a que havia sido prometida.

— Dom João VI mandou construir casas para 700 moradores, mas vieram mais de dois mil. Então, as pessoas tiveram que se amontoar nas casas, criando famílias artificiais — conta Tiago Wermelinger, que mantém o blog de história <afamiliawermelinger.blogspot.com>.

Quando as terras prometidas foram repartidas, outra decepção:

— A divisão não levava em conta a geografia do terreno. Pegaram um mapa e riscaram. Então, até terreno na pedreira do Cônego8 foi dado para a prática da agricultura, o que era totalmente inviável — conta Thurler.

Outras famílias ficaram isoladas na região de Lumiar9, como os Ouverney, que transformaram em tradição o casamento entre primos. Até hoje, em Benfica, o costume se mantém.

— Eu não tinha muita opção para escolher, casei com ela — brinca Agrimaldo Ouverney, de 83 anos, que caminhava quilômetros até a casa da prima Olinda para vê-la.

Quem conseguiu plantar foi surpreendido com uma enchente bem na época em que haveria a primeira colheita:

— Lá por 1819, 1820, teve uma grande enchente que destruiu as plantações — conta a historiadora Janaína Botelho. — Os suíços ouviam falar muito sobre a próspera região de Cantagalo e Bom Jardim, onde barões do café prosperavam. E começaram a migrar para a região.

A família Wermelinger adquiriu terras na década de 1840 na região que hoje é Duas Barras. Outra conhecida família suíça que migrou para a cidade foi a Monnerat.

Dez anos depois, havia 662 suíços morando nas vilas coloniais. Na metade do século XIX, Friburgo tinha 4.810 habitantes e só 20% eram suíços.

Famílias promovem encontros

Com ajuda da internet, os laços entre os descendentes de colonos se estreitaram. Muitas famílias organizam encontros periódicos. A cada dois anos, há "Wermelinger fest". Nos aniversários de Geraldo Thurler, ele promove a "Festa do pão" (evento em que cada um leva um ingrediente para produzir pães artesanais).

O diretor cultural da Casa Suíça, Maurício Pinheiro, diz que a herança fica mais evidente nos "clãs familiares" do que na preservação de cultura e danças típicas.

— As famílias são muito tradicionais, e os valores se mantêm. Mas o idioma, as danças e as músicas se perdem — diz.

A historiadora Janaína Botelho concorda com a afirmação de Pinheiro:

— Talvez porque os colonos eram muito humildes e ficavam isolados em comunidades agrícolas ocorreu esse processo de aculturação.

Na contramão, os Ouverney se orgulham de manter e disseminar a tradição gastronômica. Terezinha tem um restaurante em Mury10 e produz biscoitos amanteigados e o leckerli11, tipo de pão de mel muito consumido na Suíça.

— Aprendi com minha avó e, quando fui à Suíça, vi que as confeitarias usam as mesmas receitas — conta Terezinha.

Os pais dela, Agrimaldo e Olinda Ouverney, ainda moram na região de Lumiar. Eles trabalharam com agricultura a vida inteira e até hoje plantam café para consumo próprio. Agrimaldo, inclusive, guarda instrumentos dos antepassados.

Em contato com familiares suíços e associações culturais, Geraldo Thurler iniciou um projeto para resgatar danças e músicas folclóricas.

— Nós montamos um grupo de dança há pouco tempo. Os parentes estão adorando — conta Thurler, que ressalta outras heranças menos visíveis. — Educação rígida, apreço pelos detalhes, espírito empreendedor e garra são características do povo suíço.

Thurler lembra outro momento difícil na história da cidade. Sede de grandes fábricas têxteis desde o início do século passado, como a Renor das Arp e a Filó, Friburgo viu demissões em massa com a recessão da década de 1980. A superação da crise, porém, excedeu as expectativas.

— Em vez de chorar, as pessoas começaram a produzir lingerie em casa e prosperaram. O que eram duas empresas hoje é polo de moda íntima, com várias [empresas] — diz o pesquisador.

Nota arquivística: a pesquisa documental subsequente à publicação desta matéria em 2011 identificou três pequenas divergências factuais entre o texto jornalístico e fontes primárias suíças posteriormente acessadas. Estão registradas nas notas finais (12)12 deste post, em respeito ao princípio editorial deste arquivo. A matéria permanece reproduzida em sua forma original — divergências são registradas, não corrigidas no texto-fonte.

Scans da matéria original

O Globo Serra — capa

Capa da edição de O Globo Serra — região serrana fluminense.

Matéria Brava gente — página 1

Reportagem Brava gente — abertura.

Matéria Brava gente — página 2

Reportagem Brava gente — continuação.

Matéria Brava gente — página 3

Reportagem Brava gente — conclusão e citação dos sobrenomes.

Notas

  1. serra — termo brasileiro que designa, neste contexto, a região montanhosa do interior do estado do Rio de Janeiro (especialmente a Serra dos Órgãos e adjacências), onde se localizam Nova Friburgo, Bom Jardim e Duas Barras. Carrega significado geográfico e cultural — território da imigração suíço-alemã desde 1819.
  2. O Globo — um dos maiores jornais brasileiros, fundado em 1925 no Rio de Janeiro. O Globo Serra é a edição regional dedicada à região serrana fluminense.
  3. Nova Friburgo foi fundada em 1818 por Decreto Régio de D. João VI e povoada em 1819 com a chegada de cerca de 2.000 imigrantes suíços, constituindo a primeira colônia suíça organizada em solo brasileiro — precedente histórico para as imigrações alemãs subsequentes ao Sul do Brasil.
  4. alma do lugar — equivalente ao clássico latino genius loci. A expressão remete ao caráter imaterial, saturado de história, de um lugar — algo que transcende seus traços materiais.

Tiago Torres Wermelinger

Duas Barras · Rio de Janeiro · Junho 2013

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