Arquivo Wermelinger — afamiliawermelinger.blogspot.com
Na véspera do Ano Novo de 1825, um médico suíço sentou-se para escrever uma carta. Estava em Campos dos Goytacazes, a seis dias de viagem da colônia que havia deixado para trás. Tinha 46 anos, uma esposa, quatro filhos vivos, e uma raiva contida que não cabia mais no peito.
O médico chamava-se Johann Baptist Jost. Natural de Willisau, cantão de Lucerna, havia embarcado seis anos antes no mesmo navio que François Xavier Wermelinger — o Heureux Voyage, que de "viagem feliz" teve muito pouco. Agora, do outro lado do oceano, escrevia ao Schultheiss Amrhyn, chefe do governo de Lucerna, para prestar contas do que havia acontecido com cada uma das famílias lucernesas que tinham deixado a Suíça em julho de 1819.
A carta, datada de 31 de dezembro de 1825, encontra-se no Staatsarchiv Luzern, sob a signatura AKT 24/60.B.3. O texto completo foi publicado por Martin Nicoulin em La genèse de Nova Friburgo (páginas 296-303). É um documento extraordinário — um relato direto, sem filtros, de quem viveu o que descreve.
O vizinho de Willisau
Jost e Wermelinger não eram apenas conterrâneos. Na lista oficial dos emigrantes lucerneses (BF 52, Staatsarchiv Luzern), seus nomes aparecem lado a lado:
Entrada 35: Wermelinger Xavier — Willisau — 44 anos Entrada 43: Jost Johann Baptist — Willisau — 40 anos — Arzt und Secretaire
Embarcaram juntos. Cruzaram o Atlântico no mesmo navio. Chegaram juntos a Nova Friburgo em 1º de janeiro de 1820. Xavier recebeu o lote nº 61. Jost recebeu outro lote na mesma colônia. Viveram como vizinhos nos primeiros anos, até que ambos, por razões diferentes, decidiram que aquela terra gelada e estéril não era lugar para criar filhos.
"Sitzt im Wald mit den Affen"
Na carta, Jost descreve cada família lucernesa — uma por uma, sem piedade e sem enfeite. Quando chega a vez de Xavier, escreve:
"Wermelinger Xavier, von Willisau, — Trexler, — s Frau, und 7 oder 8 Kindern; nur simple. Hat Colonie-Land No. 61 verpachtet, und zog aus nach Macahé, etwas besser und wärmer als Colonie Land für Café. — sitzt allso im Wald mit den Affen."
Em tradução:
"Wermelinger Xavier, de Willisau — tecelão — sua esposa e 7 ou 8 filhos; apenas simples. Arrendou o lote colonial nº 61 e mudou-se para Macaé, um pouco melhor e mais quente do que a terra da colônia para café. — Está, portanto, sentado na mata com os macacos."
O que essas linhas nos dizem
Cada palavra importa. Vejamos o que Jost revela:
Trexler — tecelão. Na lista oficial de 1819 (BF 52), a coluna de profissão de Xavier estava vazia, enquanto seus vizinhos de lista eram marcados como carpinteiros, sapateiros, padeiros e médicos. Agora sabemos: Xavier era tecelão. Trabalhava com tear em Willisau. Não era agricultor. Não era artesão da construção. Era um homem das mãos finas — que foi colocado para derrubar floresta tropical com machado.
"Nur simple" — apenas simples. Jost não poupa ninguém em sua carta. Há quem ele chame de "bêbado", de "vagabundo", de "preguiçoso". De Xavier, diz apenas que era "simples" — gente humilde, sem pretensões, sem dinheiro. Não é um insulto. É a constatação de que Xavier não tinha capital para comprar escravos, mulas ou fazendas prontas. Tinha apenas braços, família e teimosia.
"7 oder 8 Kindern" — 7 ou 8 filhos. Xavier embarcou com 6 filhos vivos (um sétimo, Johann Baptist, morreu a bordo em 28 de novembro de 1819, com apenas um ano de idade). Em 1825, seis anos depois da chegada, já havia 7 ou 8. Os filhos nascidos no Brasil já estavam chegando. A família crescia mesmo na adversidade.
"Verpachtet" — arrendou. Xavier não vendeu o lote 61 em Nova Friburgo. Arrendou-o. Manteve o vínculo com a terra que recebera, mas reconheceu que ali não era possível prosperar. A colônia ficava numa serra fria, onde, como o próprio Jost descreve em outro trecho da carta, "só nascem milho, feijão e batatas mal feitas; todos os frutos tropicais — bananas, abacaxis, café, laranjas, limões — crescem, mas morrem ao primeiro frio."
"Macahé" — mudou-se para Macaé. Xavier desceu a serra. Buscou terra mais quente, mais baixa, onde o café pudesse crescer. Não foi sozinho: Jost anota que Josef Meyer, outro colono lucernês, "zog mit Wermelinger nach Macahé" — mudou-se junto com Wermelinger para Macaé. Iam juntos, como haviam ido juntos no navio, como haviam ido juntos de Willisau a Basileia, de Basileia a Roterdã, de Roterdã a Texel, de Texel ao Rio de Janeiro, do Rio a Nova Friburgo. A solidariedade entre conterrâneos era o que restava quando tudo o mais falhava.
"Sitzt im Wald mit den Affen" — está sentado na mata com os macacos. Essa frase é puro Jost: ácido, direto, quase cruel. Mas não é um julgamento — é uma descrição literal. Xavier estava em plena Mata Atlântica, derrubando árvores, plantando café, cercado de macacos. Um tecelão suíço de 50 anos, na floresta tropical de Macaé. A imagem é ao mesmo tempo absurda e heroica.
A trajetória que se desenha
Com a carta de Jost, podemos agora reconstruir os primeiros anos de Xavier no Brasil:
1819, julho — Parte de Willisau com a esposa Catharina Egglin (Kathrina Eggli) e seis filhos. Xavier tem 44 anos. Renuncia para sempre ao direito de cidadão de Lucerna.
1819, 10 de outubro — Embarca no Heureux Voyage em Texel, Holanda. O navio leva 442 colonos de Valais, Lucerna, Soleure e Schwyz.
1819, 28 de novembro — Johann Baptist Wermelinger, o filho mais novo, com apenas um ano de idade, morre a bordo. É um dos seis lucerneses mortos no mar — todos crianças.
1820, 1º de janeiro — Chega a Nova Friburgo. Recebe a casa nº 81 e o lote nº 61 em Morro Queimado.
1820-1822 — Tenta cultivar a terra. O clima é frio demais. O café não vinga. As provisões prometidas pelo tratado não chegam, ou chegam nas mãos erradas. A fome ronda.
~1822-1825 — Arrenda o lote 61 e desce para Macaé com Josef Meyer. Começa a plantar café em terra mais quente. Novos filhos nascem.
1825, 31 de dezembro — Jost, do outro lado do estado, registra o que ouviu: Xavier está na mata de Macaé com 7 ou 8 filhos. Simples. Vivo. Plantando.
Mais tarde, Xavier seguirá para a Aldeia da Pedra — atual Itaocara — onde, por volta de 1860, encontrará pessoalmente o diplomata suíço Johann Jakob von Tschudi e lhe dirá, com a autoridade de quem viveu tudo, que "os primeiros doze a quinze anos foram duros e cheios de amargas decepções, marcados pela miséria — mas depois, as coisas melhoraram, e ele vivia satisfeito."
O Dr. Jost — um retrato
Vale conhecer o homem que escreveu sobre Xavier. Johann Baptist Jost nasceu em Willisau por volta de 1779. Era médico e secretário — o único profissional liberal entre os emigrantes lucerneses. Embarcou com a esposa Marianna Barth e seis filhos. Dois morreram nos primeiros meses: Marianna (3 anos) em 14 de janeiro de 1820, e Genovefa (6 meses) em 6 de dezembro de 1819.
Jost saiu da colônia em 1821. Passou três meses e meio na Aldeia da Pedra, depois três anos em São Fidélis, e finalmente estabeleceu-se em Campos dos Goytacazes, onde exerceu a medicina com licença imperial. Descrevia-se como "glücklich von 100 die 99 weg-practizierend" — "curando felizmente 99 de cada 100".
Seu melhor amigo era Wendelin Rüttimann, ourives de Sursee, que em carta separada da mesma época escreveu: "Dr. Joste von Willisau ist immer mein bester Kamerad und Freund gewesen" — "o Dr. Jost de Willisau sempre foi meu melhor camarada e amigo."
A carta de Jost não é neutra. Ele denuncia corrupção nos subsídios enviados da Suíça, acusa intermediários de roubo, e se revolta com a discriminação contra os colonos de fala alemã. Mas tampouco é injusto: reconhece que "quem saiu com Deus, quem saiu com prudência, quem pensou 'todo começo é difícil' e cuidou dos filhos — a esse não foi mal."
Xavier Wermelinger, o tecelão simples que foi para a mata com os macacos, parece ter sido um desses.
As fontes
Este artigo baseia-se nas seguintes fontes primárias, todas preservadas no Staatsarchiv Luzern:
- BF 52 — Lista oficial dos emigrantes lucerneses de 1819 (Nahmens-Verzeichnis der nach Brasilien ausgewanderten Individuen des Kantons Luzern)
- AKT 24/60.B.3 — Carta de Johann Baptist Jost ao Schultheiss Amrhyn, 31 de dezembro de 1825
- AKT 24/60.B.3 — Carta de Josef Wendelin Rüttimann a Eduard Pfyffer, 11 de agosto de 1825
- AKT 24/60.A.3 — Carta de Franz Hunkeler ao Conselheiro Vinzenz Hegi, 20 de maio de 1820
O texto integral da carta de Jost foi publicado em: Nicoulin, Martin, La genèse de Nova Friburgo. Emigration et colonisation suisse au Brésil 1817-1827, Fribourg, 1973, pp. 296-303.
Um livro dedicado à família Wermelinger: Abib, Alberto Lima, A família Wermelinger: uma aventura em dois continentes (a imigração suíça de 1819/1820), Nova Friburgo, 2000.
Contexto histórico geral: Bossard-Borner, Heidi, Im Bann der Revolution. Der Kanton Luzern 1798-1831/5, Luzern, 1998 (LHV 34), p. 297.
ANEXO I — Lista oficial dos emigrantes lucerneses, 1819 (excerto)
Fonte: Staatsarchiv Luzern, signatura BF 52 Nahmens-Verzeichnis der nach Brasilien ausgewanderten Individuen des Kantons Luzern, 1819
O documento original registra que os emigrantes partiram em 12 de julho de 1819 ("unterm 12. Heumonat"), sob a supervisão do comissário Hauptmann Kaspar Theiler de Lucerna, e que renunciaram para sempre ao direito de cidadania no cantão de Lucerna ("auf immer auf ihr bisher im Kanton Luzern besessenes Heimatrecht Verzicht geleistet").
Amt Willisau — Entrada da família Wermelinger:
| Nº | Nome | Heimatgemeinde | Aufenthaltsort | Idade | Beruf | Tod |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 35 | Wermelinger Xavier | Willisau | Willisau | 44 | — | — |
| 36 | Kathrina Eggli | 37 | — | — | ||
| 37 | 1. Xavier (filho) | 10 | — | — | ||
| 38 | 2. Josef | 7 | — | — | ||
| 39 | 3. Steffan | 6 | — | — | ||
| 40 | 4. Johann Baptist | 1 | — | 28.11.1819 | ||
| 41 | 5. Kathrina | 9 | — | — | ||
| 42 | 6. Marianna | 4 | — | — |
Entrada seguinte — família Jost (vizinhos em Willisau):
| Nº | Nome | Heimatgemeinde | Aufenthaltsort | Idade | Beruf | Tod |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 43 | Jost Johann Baptist | Willisau | Willisau | 40 | Arzt und Secretaire | — |
| 44 | Marianna Barth | — | — | — | ||
| 45 | 1. Johann Baptist | 9 | — | — | ||
| 46 | 2. Anton | 7 | — | — | ||
| 47 | 3. Thomas | 6 | — | — | ||
| 48 | 4. Franz | 4 | — | — | ||
| 49 | 5. Marianna | 3 | — | 14.1.1820 | ||
| 50 | 6. Genovefa | ½ | — | 6.12.1819 |
Nota: A última coluna (Sterbedatum) foi acrescentada posteriormente com base em Abib, Lima, Wermelinger, p. 82 e seguintes.
ANEXO II — Carta do Dr. Johann Baptist Jost, 31 de dezembro de 1825 (excertos)
Fonte: Staatsarchiv Luzern, signatura AKT 24/60.B.3 Remetente: Joh. Bapt. Joste, Arzt und Wundarzt, Campos dos Goytacazes Destinatário: Schultheiss Amrhyn, Luzern Publicação: Nicoulin, Martin, La genèse de Nova Friburgo, Fribourg, 1973, pp. 296-303
Trecho original — entrada nº 12, sobre Xavier Wermelinger:
"12. Wermelinger Xavier, von Willisau, - Trexler, - s Frau, und 7 oder 8 Kindern; nur simple. Hat Colonie-Land No. 61 verpachtet, und zog aus nach Macahé, etwas besser und wärmer als Colonie Land für Café. - sitzt allso im Wald mit den Affen."
Tradução: "Wermelinger Xavier, de Willisau — tecelão — sua esposa e 7 ou 8 filhos; apenas simples. Arrendou o lote colonial nº 61 e mudou-se para Macaé, um pouco melhor e mais quente do que a terra da colônia para café. Está, portanto, sentado na mata com os macacos."
Trecho original — entrada nº 10, Josef Meyer (migrou junto com Xavier):
"10. Meyer Jos. - schon 2 mal Witwer in Colonie, und sey wieder verehel. - halbhölzerner Kerl, so-so. Zog mit Wermelinger nach Macahé, um Cafe-pflanzen. zanken alle Nachbarn brav Tochter in Rio verheyr. Sohn Jos. - weiss nicht."
Tradução: "Meyer Josef — já duas vezes viúvo na colônia, e casou-se de novo — sujeito meio grosso, assim-assim. Mudou-se com Wermelinger para Macaé para plantar café. Briga bravamente com todos os vizinhos. Filha casada no Rio. Filho Josef — não sei."
Trecho original — sobre a terra da colônia:
"Denn Morro-Queimado liegt in einer hohen kalten u. angeerischen Serra, oder Gebirgskette, bey 40 Meilen, wie Bündten-Glarus,-Uri,-Wallis etc. zusammengesetzt allso hin und wieder nur ein etwas besseres Hochthal darin, um Bohnen, Mais, Kartoffeln bös, und Garten-Gewächs zu pflanzen; denn alle Süd - und hinländischen zahme Gewächse und Früchten, z.B. Bananas, Ananas, Café, -Pommeranzen, Zitronen u. s. w. Hunderte, wachsen zwar, sterben aber bey erstem Kaltwerden wieder ab."
Tradução: "Pois Morro Queimado fica numa serra alta, fria e hostil, a 40 milhas, como Grisões-Glaris-Uri-Valais juntos — portanto, aqui e ali apenas um vale alto um pouco melhor, para plantar feijão, milho, batatas mal feitas e hortaliças; pois todos os frutos tropicais cultivados — bananas, abacaxis, café, laranjas, limões etc. — crescem, é verdade, mas morrem ao primeiro frio."
Trecho original — sobre quem prosperou:
"Wer auszog mit Gott! - wer auszog mit Bedacht! wer daran dachte: - Aller Anfang ist schwer, und Wir Eltern werden vieles erfahren, und leiden müssen die Ersten Jahre, es ist aber unsere hohe Pflicht für unsere lieben Kinder zu sorgen, und Ihnen zu Ihrem Auf- und Fortkommen zu helfen."
Tradução: "Quem saiu com Deus! Quem saiu com prudência! Quem pensou: todo começo é difícil, e nós, pais, teremos de suportar e sofrer muito nos primeiros anos, mas é nosso alto dever cuidar dos nossos queridos filhos e ajudá-los a progredir e prosperar."
Trecho original — sobre a corrupção nos subsídios:
"Dass die armen Colonisten immerfort, von Anfang bis Dato, um eigenes, mitgebrachtes, versprochenes lt. Tractat, und Nachgesandtes zur Aufhilfe, beeinträchtigt, betrogen, u. bestohlen worden."
Tradução: "Que os pobres colonos foram, desde o início até hoje, prejudicados, enganados e roubados — tanto no que era próprio e trazido de casa, como no que lhes fora prometido pelo tratado, e no que lhes foi enviado posteriormente como auxílio."
Trecho original — sobre o próprio Jost:
"16. Joste, Joh. Bapt., von Willisau, seit 1821 Spätjahr. erstlich 3 1/2 Mon. in Aldéa de Pedra, bey Capuziner Ths. di Castelli etc., dann 3 volle Jahr bei Aldéa de S. Fideles, izt seit Ende März hier in Stadt Campos etabliert, und mit Kayserl. Patente als Arzt und Chirurg, glücklich von 100 = die 99 weg-practizierend; Mit Frau und 4 Knaben, gut zufrieden."
Tradução: "Jost, Joh. Bapt., de Willisau, desde o outono de 1821. Primeiro 3½ meses na Aldeia da Pedra, com os capuchinhos de Ths. di Castelli etc., depois 3 anos inteiros em Aldeia de São Fidélis, agora desde fins de março aqui na cidade de Campos estabelecido, e com patente imperial como médico e cirurgião, felizmente curando 99 de cada 100; com esposa e 4 meninos, bem satisfeito."
Assinatura:
"Das wünscht aus innigstem Hertzen Hochderselben! immerfort dankbarer, und getreuer alter Mitbürger und Diener, Joh. Bapt. Joste, Arzt und Wundarzt, m.p. Beendigt heute den 31 Dezbre 1825."
ANEXO III — Carta de Franz Hunkeler, 20 de maio de 1820 (excertos)
Fonte: Staatsarchiv Luzern, signatura AKT 24/60.A.3 Remetente: Franz Hunkeler, Nova Friburgo Destinatário: Conselheiro Vinzenz Hegi, Luzern
Trecho original — sobre as mortes no mar:
"Von dem Luzerner Convoi starben auf dem Meer nicht mehr als 6 Personen jedoch nur Kinder, nemlich 3 dem Josef Huober, 1 dem X. Wermelinger, und 2 dem Haslimann, obschon wir sehr enge eingepackt wurden."
Tradução: "Do comboio de Lucerna não morreram no mar mais que 6 pessoas, porém apenas crianças: 3 de Josef Huber, 1 de X. Wermelinger, e 2 de Haslimann, embora estivéssemos amontoados muito apertados."
Trecho original — sobre a travessia:
"Den 11ten Oktober 1819 fuhren wir 450 Köpf auf dem Schiffe der glücklichen Reise in Texel in Holland ab. Wir hatten immer guten Wind und würden gewiss in 7 Wochen in Rio Janeiro angekommen sein, wenn uns nicht auf dem Canarischen Meer nicht alle 3 Mastbäume abgebrochen wären."
Tradução: "Em 11 de outubro de 1819 partimos, 450 almas no navio da Viagem Feliz, de Texel na Holanda. Tivemos sempre bom vento e certamente teríamos chegado ao Rio de Janeiro em 7 semanas, se no mar das Canárias não tivessem quebrado todos os 3 mastros."
Trecho original — sobre a chegada e as condições:
"Nichts ist auf dem Meer zu fürchten als bei einem solchen Transport von Menschen, so dass viele Ungeziefer, alles, niemand ausgenommen wird voll Läuse und Flöch."
Tradução: "Nada há a temer no mar, a não ser, num transporte de gente como este, a praga de parasitas: todos, sem exceção, ficam cobertos de piolhos e pulgas."
Trecho original — lista de mortos lucerneses até maio de 1820:
"Gestorben sind nun von Luzern von Haus bis dato a. von Familie Büttler Kind — 2 b. Haslimann Kind — 2 c. Hecht Alois Sohn — 1 d. Huobers Frau und Kinder — 5 e. Hunkelers Frau und 2 Kinder — 3 f. Luterbach alt und Kind — 2 g. Meyers Frau und 2 Kind — 3 h. Michel Rütiman und Frau und 1 Kind — 3 i. Wendel Rütimans Frau und Kind — 2 k. Jost Babtist Kinder — 2 l. Wetterwald Familie ganz bis an 1 Kind — 6 m. Wermelinger Kind — 1"
Total: 32 mortos lucerneses entre a partida (julho de 1819) e maio de 1820. De 140 que partiram, chegaram vivos e sobreviveram aos primeiros meses 108 pessoas. A família Wetterwald, de Ohlisrüti perto de Willisau, perdeu quase todos — o pai morreu na Holanda, a esposa e quatro filhos morreram em Nova Friburgo, sobrando apenas uma criança.
ANEXO IV — Carta de Wendelin Rüttimann, 11 de agosto de 1825 (excertos)
Fonte: Staatsarchiv Luzern, signatura AKT 24/60.B.3 Remetente: Josef Wendelin Rüttimann, Campos dos Goytacazes Destinatário: Eduard Pfyffer, Presidente do Polizei-Rath, Luzern
Trecho original — sobre a amizade com o Dr. Jost:
"Schon auf unserer ganzen Reise und fortwährend in diesem unserm neuen Vaterlande ist Dr. Joste von Willisau immer mein bester Kamerad und Freund gewesen, und danke ihm viel Gutthaten zu meinem Fortkommen. Er ist glüklich und wohl."
Tradução: "Já durante toda a nossa viagem e continuamente nesta nossa nova pátria, o Dr. Jost de Willisau sempre foi meu melhor camarada e amigo, e devo-lhe muitas boas ações para o meu progresso. Ele está feliz e bem."
Trecho original — sobre a terra da colônia:
"Wäre unsere in eine solche fruchtbare Gegend verlegt worden – ja! es wäre wohl anders gegangen. Aber wo sie ist, kann und wird nichts werden. Zu kalt. Nur Mais, Bohnen und Erdäpfel kommen davon."
Tradução: "Se a nossa [colônia] tivesse sido colocada numa região tão fértil assim — sim! tudo teria sido diferente. Mas onde ela está, nada pode nem vai resultar. Frio demais. Só milho, feijão e batatas saem dali."
Trecho original — sobre a Aldeia da Pedra e a Dispersão:
"Viele sind nach Minas, Aldèa da Pedra, haben Land umsonst bekommen, und stehn nicht bös, was will aber ein Mann allein mit Weib und kleinen Kindern machen, die ihm nichts helfen können."
Tradução: "Muitos foram para Minas, Aldeia da Pedra, receberam terra de graça e não estão mal — mas o que pode fazer um homem sozinho com esposa e filhos pequenos, que em nada podem ajudá-lo?"
Trecho original — sobre as perdas pessoais de Rüttimann:
"In Medenblek, einer Stadt in Holland, starb mein Töchterlein Mariannli, schon krank in Dordrecht eingeschift; in Neufreiburg am 12. Horner 1820 starb meine liebe Gattin Margaritha Imbach an einer unglüklichen Niederkunft, und abgeschwächt von den Beschwerden der Reise und mehreren Umständen."
Tradução: "Em Medemblik, uma cidade na Holanda, morreu a minha filhinha Mariannli, já doente ao ser embarcada em Dordrecht; em Nova Friburgo, a 12 de fevereiro de 1820, morreu a minha querida esposa Margaritha Imbach de um parto infeliz, enfraquecida pelas agruras da viagem e várias circunstâncias."
ANEXO V — Página do Staatsarchiv Luzern sobre Nova Friburgo
O Staatsarchiv Luzern mantém uma página dedicada à emigração lucernesa de 1819, redigida por Markus Lischer, com a lista BF 52, excertos das cartas e referências bibliográficas. Disponível em:
https://staatsarchiv.lu.ch/schaufenster (seção Nova Friburgo)
A página informa que as fontes primárias estão reunidas numa caixa de arquivo com a signatura AKT 24/60, contendo as cartas de Hunkeler (1820), Rüttimann (1825) e Jost (1825), além do regulamento da viagem. A lista de nomes encontra-se sob a signatura BF 52.
O Staatsarchiv também possui na sua biblioteca:
- Abib, Alberto Lima, A família Wermelinger: uma aventura em dois continentes, Nova Friburgo, 2000. Signatura: G.h 37
- Abib, Alberto Lima, E os Suíços chegaram!!, Nova Friburgo, 2004. Signatura: Bro B 2756
Bibliografia adicional citada pelo Staatsarchiv:
- Nicoulin, Martin, La genèse de Nova Friburgo. Emigration et colonisation suisse au Brésil 1817-1827, Fribourg, 1973
- Bucher-Häfliger, Josef, "Rottaler finden in Brasilien eine neue Heimat", Willisauer Bote, 23 de maio de 1997
- Jurt, Joseph, "Auf Willisauer Spuren in Brasilien", Quattro, Nr. 1, 3 de janeiro de 2004
- Jurt, Joseph, "Schweizer Emigration nach Brasilien. Aus der Sicht des Willisauers Joseph Hecht", Heimatkunde Wiggertal 2026, pp. 153-161
- Weibel-Knupp, Anita, "Schweizer Auswanderung nach Brasilien 1819", Jahrbuch SGFF 42 (2015), pp. 223-268
Tiago Torres Wermelinger Duas Barras, Rio de Janeiro, Brasil Abril de 2026
Descendente direto de François Xavier Wermelinger (Willisau ~1775 — Brasil ~1870)
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