Convite 1º Encontro da Família Wermelinger — Duas Barras 1995
domingo, 29 de março de 2026
O Dia em que os Wermelinger se Encontraram
Havia crachás na entrada. Pequenos pedaços de papel com um nome — e esse nome era suficiente. Todo Wermelinger, descendente ou não, tinha direito a usá-lo como identificação para participar do encontro. Era o dia 22 de abril de 1995, um sábado de outono em Duas Barras, e o ginásio de esportes Sebastião José dos Santos, do Bibarrense Atlético Clube, se preparava para receber o que imaginavam ser trezentas, talvez quinhentas pessoas.
Não havia como prever o que estava por vir.
Às nove horas da manhã, a comitiva se dirigiu primeiro à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Aquela mesma nave de pedra e cal que tantos Wermelinger batizaram seus filhos, casaram suas filhas, velaram seus mortos. A missa de Ação de Graças soou diferente naquele dia — as vozes eram mais numerosas, os bancos mais cheios, e havia algo no ar que não era apenas o incenso. Era o peso de 175 anos sendo reconhecido coletivamente, pela primeira vez.
Depois da missa, a comitiva seguiu ao cemitério da Irmandade. Flores foram depositadas sobre os túmulos dos antepassados. Alguém parou diante de uma lápide e ficou em silêncio por um longo momento. Ninguém precisou perguntar o que sentia.
Em 1820, François Xavier Wermelinger desembarcou no Brasil com sua esposa Catharina Egglin e cinco filhos, após uma travessia que custou ao menos uma vida — João Batista Wermelinger faleceu a bordo do navio Heureux Voyage em 20 de dezembro de 1819, antes mesmo de ver a terra nova. Eles vieram de Lucerna, no cantão católico da Suíça, carregando um nome que remontava ao ano 1300 — registrado nos arquivos de Ruswil como "Wermoldingen", derivado da "Quinta de Wermellinger" ao norte de Wolhnses.
Dedicaram-se ao desenvolvimento agropastoril das regiões de Duas Barras, Sumidouro, Cantagalo, Cordeiro e Itaocara. Não encontraram terras fáceis. A topografia era ingrata, o clima imprevisível, e os instrumentos disponíveis nada tinham do conforto europeu. Mas ficaram. E ao ficarem, plantaram raízes que nenhuma intempérie conseguiu arrancar.
Cento e setenta e cinco anos depois, seus descendentes voltavam àquele mesmo solo — não para trabalhar, mas para se reconhecer.
De volta ao ginásio, às onze e quinze, a Assembleia Geral foi aberta com a leitura de um histórico minucioso sobre a origem da família. O advogado Wálter Wermelinger da Costa — que desde 1962 pesquisava a genealogia do clã — estava à frente do evento ao lado de Humberto Marchon Fontão, técnico de laboratório aposentado. Juntos, eles haviam sonhado com aquele dia por décadas.
"Esperava de trezentas a quinhentas pessoas", disse Wálter mais tarde. "E acredito que haja mais de mil."
Às 13h50, cinco horas após a abertura, 1.170 pessoas já haviam passado pelas roletas do local.
Estimava-se que existissem entre seis e oito mil Wermelinger no Brasil — a maioria na Região Serrana do Rio de Janeiro — e aproximadamente trezentos na Suíça, onde o ramo europeu havia perdido contato com o brasileiro desde 1819. No ginásio, questionários foram distribuídos para a montagem de um banco de dados genealógico e a construção da árvore do clã. A ideia de fundar uma associação, em Duas Barras ou em Nova Friburgo, também estava na pauta.
O almoço de confraternização reuniu à mesma mesa figuras proeminentes anciãos encanecidos que brindaram com a beleza dos anos vividos estampada nos semblantes e o membro mais novo da família: um bebê de poucos dias de vida, nascido no povoado da Boa Vista, apresentado com euforia no colo da mãe emocionada. Duas Barras, orgulhosa e engalanada, havia recebido de várias partes do país familiares e afins para a grande festa.
No palco, apresentações artísticas dos próprios descendentes. Concurso da rainha. Bingo beneficente em favor da APAE, com as crianças tendo atividades recreativas no Estádio do Bibarrense, ao lado do ginásio. Cada detalhe havia sido pensado pelos organizadores para que nada fosse esquecido.
O jornalista Jorge Marinho Falcão, ao cobrir o evento para o Correio Fluminense, escreveu: "Qualquer pessoa de bom discernimento se sentiria orgulhoso de pertencer à valorosa família Wermelinger."
Wálter Wermelinger da Costa, o advogado que há trinta anos guardava papéis, cartas e certidões à espera daquele momento, sintetizou o que o encontro representava: mostrar o rejuvenescimento dos Wermelinger. E também — com a seriedade de quem conhece a fragilidade das coisas — salvaguardar aquela família dos males do tempo presente.
Às dezesseis horas, enquanto o bingo sorteava seus números e as crianças corriam pelo estádio, a cidade de Duas Barras havia feito algo que raramente uma cidade pequena consegue: devolver a uma família dispersa por gerações e continentes o senso de que havia, afinal, um lugar no mundo que era seu.
O nome estava no crachá. E era suficiente.
O 1.º Encontro da Família Wermelinger foi realizado em 22 de abril de 1995, no Ginásio de Esportes Sebastião José dos Santos, Duas Barras-RJ. Organizado por Wálter Wermelinger da Costa e Humberto Marchon Fontão, reuniu 1.170 participantes. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição abrigou a missa de abertura. O clã estima entre 6.000 e 8.000 descendentes no Brasil e ~300 na Suíça.
Por Tiago Torres Wermelinger
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